A lógica do espírito inflado
Nota de um curso
Alguém me perguntou se é possível usar a lógica para defender o falso.
É comum chegarmos a essa conclusão, se levamos em conta apenas o aspecto argumentativo da lógica. Do ponto de vista da mera argumentação, qualquer tese pode ser questionada, daí as discussões-sem-fim em que muitos caem.
No entanto, essa é uma visão estreita do que é a lógica. Não diria estreita, mas nominalista, no sentido geral de que nossas ideias são antes construções linguísticas do que o resultado direto da apreensão do real.
É possível usar a poética para o mal, quando as representações intentam seduzir o leitor, de modo que ele fiquei preso à representação, sem se dirigir reflexivamente ao que é representado.
É possível usar a retórica para o mal, quando persuadimos por mero interesse próprio.
Quanto à dialética, só é possível usá-la para o mal quando o assunto admite, em si mesmo, múltiplas posições. E a isto se chama sofística. Todo sofista tenta dar um contorno irrefutável a assuntos que são, em si mesmos, meramente opináveis.
No caso da demonstração, quanto a verdades que são eternas e imutáveis, não é possível usar a lógica para o mal.
Por um motivo simples: na poética, na retórica e nas discussões prováveis, o verdadeiro e o falso podem dar-se entremesclados. Aqui, não. Na demonstração, a única possibilidade é a verdade, pois é impossível demonstrar o falso.
Quando alguém tenta demonstrar algo falso, essa pessoa chegará invariavelmente à verdade, pois perceberá que é verdade que aquilo é falso.
Isso ocorre porque, segundo Santo Tomás, a demonstração é um outro modo de chamar a inteligência. Inteligência é a capacidade de entender as coisas segundo seus princípios, e a demonstração é justamente a explicitação desse entendimento, que leva à ciência.1
Então, você pode produzir uma representação sedutora do falso, você pode apelar para muitos recursos que persuadem para o mal, pode até se servir de argumentos bem amarrados que o fundamenta.
Contudo, ainda assim, você nunca será capaz de entender o falso; pois o falso é um vazio. É nada. Não há o que entender, a única coisa que você pode fazer é bolar um imenso labirinto que impeça tal entendimento.
É por isso que a soberba é pintada como o espírito inflado. Espírito significa ar, em sua raiz. O soberbo intelectualmente é aquele que se infla, sugando todo tipo de argumento, todo tipo de conhecimento, como se fora capaz de sorver toda a realidade e fazer-se senhor dela, tendo resposta para tudo. Mas o que há nele, de fato, é um grande vazio protegido pela aparência de grandeza.
É por isso também que o logos, a palavra (a voz, concretamente) é o espírito, o ar, tomado forma. Não vem de fora, pelo inchaço, mas de dentro. Tem vida, portanto. O filósofo, nesse sentido, sabe poucas coisas, mas o seu logos, a sua palavra, tem a força de dar vida a outras pessoas. É por isso que a dialética é chamada de mãe de todos os ensinamentos, pois consiste no próprio movimento da razão rumo à verdade.
E esse tipo de movimento é um tipo de vida. Com a diferença de que sua fecundidade não possui a limitação do corpo, mas se dá pelo influxo do espírito. Por ter vida, a voz, o logos do filósofo é capaz de dar vida, de gerar esse mesmo tipo de movimento em outros. Essa é a função maior da lógica, em seu sentido autêntico.
“Assim, quando conhece os princípios, dizêmo-lo dotado de inteligência; de ciência, porém, quando conhece as conclusões; quando conhece a causa altíssima, dizêmo-lo dotado de sabedoria; e, por fim, de conselho ou prudência, quando conhece o que deve fazer.” (I, Q. 14, art. 1)


Diz a Escritura: “todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado” (Jo 8,34), e também “a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Logo, fora da verdade e da retidão não há liberdade autêntica, mas escravidão do erro e do vício.