A filosofia no Brasil
Considerações introdutórias
Tenho algumas pesquisas a que chamo por “mineirescas”, pois não tenho pressa alguma em esgotá-las tão cedo em forma livresca. Vou lendo coisa aqui e acolá, despretensiosamente. Uma delas é sobre a história cultural do Brasil, distribuída em quatro eixos: religiosa, intelectual, educacional e política. Dentro do eixo intelectual, temos a biografia da filosofia no Brasil, tal como se costumou dizer; ao invés de filosofia do Brasil. De fato, a Filosofia não possui nacionalidade, com pena de não ser filosofia, mas propaganda política.
A mesma avaliação faz João Cruz Costa, sob este critério:
“Não existe, a meu ver, uma Filosofia Nacional. Nem creio que possa existir senão assim: tudo que fazemos deve ter e tem o cunho da nossa maneira de ser. Lembro aqui, a propósito, o que escrevia o meu saudoso amigo, Prof. Joaquim de Carvalho: ‘Jamais país algum conquistou a sua personalidade espiritual confinando-se dentro de muralhas, nem robusteceu a sua vitalidade com a assepsia de todos os alimentos, mas também povo algum afirmou a sua capacidade intelectual importando o pensar alheio, nem progrediu com o estímulo frígido do cosmopolitismo.”1
Em falar de nacionalidade, dizem que o Brasil é o gigante adormecido. Digo, porém, que o Brasil tem gigantes esquecidos, isto sim. Esquecidos ou pela indiferença voraz do tempo, ou pela dureza ingrata dos homens, ou pelas modas voláteis do meio. Ainda não escapamos a esses três inimigos do espírito brasileiro.
Há, é claro, o antídoto adequado para cada um: perante a voracidade do tempo, o estudo cuidadoso de nossa história cultural, não apenas factual ou politiqueira; perante a doença da ingratidão, o cultivo de nossa língua — pressuposto o amplo conhecimento de seus grandes cultores, por que podemos dizer os melhores louvores; perante as modas, mesmo que sadias, a emulação consciente do esforço heróico desses homens.
I. A transposição de modas e estilos
Esse problema, o da mera transposição de modas, chamado de filoneísmo (amor às modas), foi alertado por Cruz Costa:
“A Filosofia no Brasil sempre foi um produto de importação. Eu procurei mostrar isso em meеи livro. Na Colônia, a escolástica importada de Coiтbra; no Império, o ecletismo; a seguir o positivismo e o evolucionismo, que chegaram até a República. Depois, o neokantismo, um pouco de bergsonismo, muito ralo; o marxismo, o existencialismo e até Husserl, Hartmann e Heidegger! (...) Mais recentemente, o estruturalismo. Até a fundação da Faculdade de Filosofia, o filoneísmo dominou nossa cultura. Era importante haver lido a obra mais recentemente publicada e, de preferência, no original. Mas não se indagava muito se o leitor assimilava o que lera. Assim, a Filosofia, coто muito mais, era privilégio de raríssimas pessoas. Com o advento dos cursos regulares de Filosofia, a situação modificou-se em parte. Começamos então a nos vestir mais simplesmente, mais moderadamente, tendo em conta, por certo, a moda, mas sem os atapios e falsos luxos filoneistas. Fugir à moda não é fácil, mas vestir-se com exagero é ridiculo.”2
Somos tão, tão apegados à necessidade histérica de macaquear as modas, que sequer alcançamos o feito mínimo de disponibilizar em vernáculo um acervo crítico suficiente das obras antigas, gregas e romanas. Providência esta que foi a primeira e mais urgente em todos os países cuja língua começou a balbuciar as primeiras reflexões.
Aqui, neste texto, enfatizo a filosofia porque representa a completude das ambições espirituais de um povo. Há algo nela de poético, de místico, político, pedagógico e de científico. E também acho que é a parte mais esquecida dos quatros eixos mencionados.
Contudo, muito já foi dito sobre a atividade filosófica no Brasil, embora pouco tenha repercutido. Não repercutiu, aliás, pela radical transformação da academia brasileira durante o regime militar. Houve ali um deslocamento, gradualmente grosseiro, para a agenda, a militância, cujos rebentos mais ressequidos temos visto ultimamente; enfim, uma surdez à advertência de Leonardo Van Acker:
“Peço vénia para ponderar que, antes de cuidarmos dos possíveis resultados práticos da Filosofia, devemos tratar de cultivar a própria Filosofia; pois, as contribuições práticas virão por acréscimo.” 3
Complementa Antônio Joaquim Severino:
O filósofo brasileiro terá importância no panorama universal da Filosofia quando suas intuições forem originais por serem sentidas em seu contexto existencial. A pretexto de que a Filosofia é um fluxo puramente “universal”, isto é, desligado da realidade individualizada, eliminar todo esforço de criação pessoal e de interrogação meditativa e paciente das situações individuais, é matematizar a Filosofia.”
“A repercussão de um pensamento filosófico numa esfera supranacional só se dá quando ele é, antes de tudo, profundamente “nacional”, ou só será universalmente influente quando for originariamente encarnado.”4
Todo povo é a sucessão de gerações que se orienta por um mesmo horizonte metafísico. Supõe-se, com efeito, a transmissão contínua desse horizonte, para que, desse modo, sempre se mostre apto a expandir-se. Ubiratan de Macedo enquadrou bem o aspecto correlato a isso, o da formação estável de uma tradição, face ao perigo de reduzir a prática filosófica à reflexão de um programa de desenvolvimento nacional — seja qual for sua base ideológica. Concorda que não há filosofia nacional no sentido do termo, mas pode haver, sim, um jeito de filosofar tradicionalmente consolidado na biogradia histórica de um povo:
“Uma Filosofia Nacional só aparece no fim de uma tradição de gerações de filósofos, que leram os mesmos mestres, e praticaram os mesmos métodos; não obstante a diversidade de suas posições, apresentam um matiz comum a identificá-los com uma nacionalidade, por causa dos antecedentes comuns.’5
II. A filosofia livresca
É claro que nosso contexto, digamos, pragmático, existencial, não pode ser ignorado. Toda filosofia é filosofia quando nasce de uma situação tão cosmicamente concreta, que se revela ao mesmo tempo resposta ao meio imediato em que se instala, e ao fim último e universal de sua missão; podendo, por isso, tanto ensinar aos prosélitos de raça, quanto a todos os homens distantes no tempo. Aqui, temos o problema inverso à pura pragmática, que é o mero cultivo livresco da filosofia.
“Há no Brasil muitos cultores da Filosofia, muitos professores de Filosofia, mas nenhum filósofo. Há um hábito livresco entre nós, onde se mede o valor de um homem, de um escritor, pela quantidade de livros e autores que ele é capaz de citar. Com isso, esforçando-se por penetrar no pensamento dos outros, o brasileiro esquece os seus próprios pensamentos.”6
Sobre essa timidez da filosofia no Brasil, volto a citar Antônio Joaquim Severino:
“O que sempre se cultivou como sendo Filosofia foram valiosas amostras de pensamento universal que repercutiram com maior intensidade em outros países ou em outras épocas e que foram para cá transportadas como se fossem fórmulas de produtos químicos, de acordo com a conveniência de elementos isolados dentro da cultura nacional.”7
Historicamente, temos um quadrante bem definido de tendências que disputam o cenário das discussões: a positivista, a existencialista, a marxista e a tomista. Todas com suas variantes e permutas. O início da primeira república foi marcado pela positivista, a redemocratização pós-regime teve acento marcado do marxismo. O período que antecede o regime militar possui ampla circulação existencialista e neotomista. Enquanto o período imperial é denominado de eclético, pela abundância de misturas nos meios eruditos e asuência de instituições que estabilizem qualquer vertente. Como diz Severino:
“Em Filosofia, os pensadores brasileiros se definem como tomistas, positivistas, marxistas ou existencialistas.”
III. O universalimo a que somos prometidos face àquele que nos é estregue
Por outro lado, essa ausência de comunicação, de continuidade, de tradição, que é a condição vital para o sentido maior da educação, é também uma condicionante positiva, dado que comprova a insuficiência da mera exportação de expressões estrangeiras, mesmo que autênticas.8 É positiva porque isenta o brasileiro de um comprometimento tal com as modas de fora, que sua consciência histórica seja totalmente solapada e raptada. Sempre que surgem modas, surgem também reações de retorno à sua identidade fundamental, mesmo que ambíguas e convulsivas. Vejamos o que diz Mário Ferreira:
“Posso colocar-me na seguinte posição: nós, brasileiros, por vivermos materialmente o universal humano, por não termos compromissos históricos que pesem demasiadamente sobre os nossos ombros, nem tampouco compromissos filosóficos, somos um povo apto para uma Filosofia de caráter ecumênico, uma Filosofia que corresponda ao verdadeiro sentido com que ela foi criada desde o início.”9
Sucede, no entanto, que esse universalismo material tende à in-formidade cultural. Isso é natural se levamos em conta o tamanho do Brasil. O Brasil, como os Estados Unidos, é uma Europa reunida — é o mundo reunido, é um país continental, e que portanto privilegia expressões locais plurais de literatura, religiosidade e, consequentemente, de filosofia. Dar um sentido transcendente a um mosaico tão difuso de expressões é desafiador.
“Partindo, por exemplo, das implicações da experiência intelectual brasileira básica; Brasileiros pelo sentimento, somos europeus pela imaginação: assim definia Joaquim Nabuco a dupla fidelidade responsável pelo permanente mal-estar na cultura brasileira, uma obsessão nacional hoje em dia recalcada”10
A Europa aguentou tal transcendência enquanto lá se preservou a fé católica, supra-nacional. Quanto aos Estados Unidos, há ali uma semelhança à unidade pluralista da religião secular romana — que encontrava na lex seu lastro de continuidade, concretamente expressa pela tradição conservadora inglesa. Há muita inspiração cristã na constituição dos Estados Unidos, é o que mostra David Holmes em seu The Faiths of the Founding Fathers; mas sua Bíblia não é a Palavra de Deus, é sua constituição fundadora.
Já o Brasil, possui outros caminhos, outros ascendentes, outra composição. Sua expansão foi forjada pelas missões jesuíticas, sua unidade encarnada na pessoa do Imperador-Moderador, seus destinos políticos, ora encabeçados pela maçonaria, ora por prelados católicos e, nos últimos tempos, pelo parasitismo marxista e suas variantes dialéticas. Seu universalismo, como diz Mário, é material, isto é, o mundo todo está injetado no sangue de sua raça, que é um pouco de tudo e, também por isso, uma paisagem indiscernível do nada.
Lembre-se nosso trauma irrecuperável, representado pela adesão estadista ao ilumismo. É um trauma porque as correntes iluministas não surgiram de modo orgânico em Portugal.11 A filosofia moderna, em Portugal, começa velha e imposta como programa político, não como desenvolvimento orgânico de novos horizontes especulativos. Com esse fato, sua tradição escolástica foi não só rompida, como suprimida historicamente; não por uma superação intelectual absorvente, mas por uma reviravolta puramente estadista e ideológica inteiriçamente. À diferença de outros lugares, a filosofia escolástica ibérica tinha férvida vitalidade nos séculos XVI e XVII.
Portanto, os lusitanos, tanto quanto nós, também estamos bem esquecidos de seu passado intelectual. Essa condição é um herança já lusitana, só que dirigida ao próprio legado português no Brasil.
Diz Mário:
“Quando hoje se visita Portugal e se vê qual a atitude predominante neste país em relação ao seu patrimônio filosófico, espanta verificar a completa ignorância sobre o que de grande já se realizou na Filosofia Portuguesa. Atualmente, nada se estuda, nas escolas, da Filosofia Portuguesa dos séculos XV, XVI e XVII. Parece que Portugal nada realizou; desconhece-se que, por quase dois séculos, a Filosofia Portuguesa imperou no mundo. Desconhecem-se autores como: Pedro Hispano; Antônio de São Domingos, O.P.; Francisco Suárez, S. J., que embora espanhol, viveu grande parte da sua vida intelectual em Portugal, onde adquiriu o seu saber… Pedro da Fonseca, S. J; Baltazar Alvares, S. J; João de São Tomás, O. P; 12
Continua depois:
Nós, brasileiros, contudo, por um espírito de colonialismo passivo, que nos domina até hoje, não cremos em nós mesmos. Só damos valor àquilo que tem origem estrangeira, e não seja de Portugal, porque também esta procedência não goza de nossa admiração. E natural, pois, que falar numa Filosofia Nacional cause manifestações de completa descrença. Não acreditar que ela exista, nem tampouco que possa surgir, é atitude geral. Ainda hoje, ‘famosos professores de Filosofia’ em Portugal dizem que é impossível criar-se uma Filosofia autóctone naquele país. Para o português, o que vale é: ‘Penso, logo não existo’ ou ‘Existo, logo não penso.” 13
Resta-nos uma revisão completa e profunda de todos esses fatores: o esquecimento do legado, a investigação das reais causas de ruptura, uma renovação de sentido que não seja nem panfletária, nem apressada e tampouco provinciana perante a História, ou meramente exegética. Essa afirmação quase aforística e algo sarcástica de Washington Vita é de inteira sensatez:
“Sem dúvida pode existir uma Filosofia nacional na medida em que na nação haja filósofos. Aliás, cada país tem a Filosofia que merece...”14
IV. A consolidação de uma academia sem existir uma filosofia
O desafio continua. Na verdade, duplicamo-lo; uma vez constatada essa situação de reprodução, de falta de autenticidade, de psitacismo, de pedantismo irrefletido, houve uma guinada total para o “rigor do método”. O rigor hermenêutico, principalmente o de índole uspiana, trouxe a estabilidade nunca antes vista à prática filosófica no Brasil. Trouxe a âncora, o ponto de partida sólido, sério — admitamos. Mas não trouxe filosofia. Trouxe, sim — ou melhor, implantou com sucesso, a visão do filósofo como especialista: o filólogo que examina o texto de outros filósofos cientificamente. Era o perigo a que insinuava Ubiratan:
“A Filosofia é hoje, para o homem do século XX, uma instituição social. Existem cátedras, institutos, editoras, sociedades consagradas à Filosofia. Existe também a estranha figura do professor de Filosofia, que vive dela. Paira sobre a Filosofia, assim entendida, a suspeita de inautenticidade. Talvez seja uma atividade ideológica de defesa da sociedade. Mas antes de se coagular em instituição, a Filosofia foi vida, necessidade vital para os homens que a inventaram. Ainda hoje á Filosofia é necessidade vital para alguns homens. Para a maioria é, porém, um complemento lógico de uma formação especializada.”15
Não havendo a personalização da filosofia no Brasil, optou-se por outro tipo de mimetismo, agora impessoal, que, se por um lado trouxe benefícios à exegese filosófica, acabou por impedir para sempre a incorporação acadêmica de uma filosofia autêntica. Como resultante, as grandes vozes nacionais se perdem ofuscadas ante o desejo renovadamente incontido de participar das correntes externas. E, a cada vez que isso ocorre, as novas gerações agravam sua alienação do passado, tomadas por um novo ciclo de ânsia por explicar o Brasil pelo que vigora mundo afora.
“Foi amparado na lucidez e na abertura de espírito de Cruz Costa e de Lívio Teixeira que o Departamento de Filosofia da USP se firmou, na década de 60, como exemplo de rigor metodológico e de aprimoramento técnico-conceitual, caracteristicas mais tarde assimiladas por outros centros universitários, que paulatinamente foram vencendo a inércia das tradições e a consolidação de hábitos intelectuais nem sempre os mais favoráveis para o adequado desenvolvimento da reflexão filosófica…
Ainda assim, e com ênfase nos anos mais recentes, formaram-se em vários pontos do país grupos que, à semelhança do núcleo de filosofia da USP nos anos 60, procuram desenvolver a ensino e a pesquisa filosófica sob a égide do rigor metodologico e da seriedade acadêmica, no afã de superar, no plano intelectual, o subdesenvolvimento sócio-econômico.”16
Uma conclusão paraxodal emerge de tudo que foi dito. Os filosofantes brasileiros, por um lado, abrem liberalmente os braços para a produção acadmêmica estrangeira — aliás, ao ponto de até os dias atuais estarem em dívida com uma definitiva disponibilização vernácula e crítica de todas as obras que desenharam nossa história desde a antiguidade; por outro, esfamaidos por acompanhar os debates mundo afora, nunca estabelecem uma tradição fecunda de discussões internas — tirante aquelas que envolvem estratégias de dominação política, internas a partidos, não ao debate filosófico.
Enfim, como diz Miguel Reale, “é necessário que o brasileiro vença certo complexo de inferioridade que o arreda da própria experiência filosófica, levando-o a repetir apenas o pensado alhures. O essencial, repito, é não querer atingir, por falsa intuição e aos saltos, o que os outros povos souberam fazer com paciente confiança nos valores do tempo e do método.”17
A última ponderação que deixo é o parecer final que o Pe. Stanilaus Ladusans faz no epílogo dos Rumos da filosofia no Brasil , após sopesar ao longo do livro as posições “contrastantes com respeito à Filosofia Brasileira: algumas são pessimistas, outras otimistas; algumas são taxativas, outras evasivas. Isto nos move ainda mais para refletir com sinceridade sobre o grau da originalidade do atual pensamento filosófico brasileiro. Que pensar a respeito?”
Eis o seu juízo:
“Porém, existe ainda o quarto sentido de originalidade, que a História da Filosofia revela: a originalidade de grandes sistemas filosóficos, que exerceram ou estão exercendo influências mundialmente, no pensamento de tantos povos. Esta é uma originalidade de primeira categoria, que até agora não se manifestou no Brasil.
O pensador brasileiro já alcançou muito: l.° — a originalidade de quarta categoria, isto é, a da participação consciente e vital na perene problemática filosófica; 2.° — a originalidade de terceira categoria — a que se manifesta no repensar crítico dos sistemas estrangeiros; 3.° — a originalidade de segunda categoria — a que se manifesta nos rumos que a Filosofia traça para a prática nacional, que é pluridimensional.
O nosso pensamento filosófico apenas encaminha-se lentamente na direção criativa para alcançar a originalidade de primeira categoria, que ainda não possui — uma filosofia de valor universal.
O que realmente é importante neste encaminhar-se filosófico é, superando complexos de inferioridade, não contaminar-se com o prurido de sistemas, isto é, evitar um querer artificial e desordenado de sistemas simplesmente por ter sistemas em qualquer maneira e qualquer que seja.”18
V. A filosofia no Brasil: panorama historiográfico19
“Nunca será demais dedicar alguns parágrafos à filosofia no Brasil. Não que o nosso legado especulativo já tenha direitos assegurados para figurar no imenso painel do pensamento humano, mas algumas manchas de côres exóticas não ficariam mal, imprimindo certa vivacidade no conjunto grave. Além disso, a abordagem dêste tema, perfuntória e anedótica, tem o condão de equacionar alguns problemas que jamais seriam debatidos não fôsse esta ousada façanha, de resto própria da gabolice latino-americana.
De fato, cumprindo seu destino e sua vocação, o pensamento brasileiro, mais do que criativo, é assimilativo das idéias alheias e, ao invés de abrir rumos novos, limita-se a assimilar e a incorporar o que vem de fora. Daí a história da filosofia no Brasil ser, em geral, uma história da penetração do pensamento alheio nos recessos de nossa vida especulativa, ser, em suma, a narrativa do grau de compreensão, da nossa capacidade de assimilação nas diferentes épocas e do nosso quociente de sensibilidade espiritual.
Contudo, não devemos perder de vista a circunstância de que as idéias filosóficas, ao desembarcarem nas costas brasileiras, quase sempre passam por estranha e curiosa sorte. A mudança de habitat — um pensamento, meditado à sombra de carvalhos, deve ser remedidado à vista de canaviais… — serve automàticamente de campo de prova para as velhas idéias: algumas destas atingem nova significação, outras logo se perdem. Disto resulta que a história das idéias nas Américas, em geral, e no Brasil, em particular, adquire grande importância, pois serve para determinar a sua generalidade, a sua aplicação às atividades humanas e a sua flexibilidade cultural.
Por outro lado, diferentemente do filósofo europeu, não é a necessidade pura e desumanizada do conhecimento abstrato que incita o pensador brasileiro, mas uma necessidade pragmática. Isto é, enquanto na Europa o pensador é um produto do ambiente em que se formou e atua, no Brasil é um reativo, um criador de atmosfera, um excitante intelectual, porque é sempre o condutor daquilo que espiritualmente é produto de outra circunstância espiritual. Daí o personalismo e o extremismo de suas idéias, não admitindo os matizes, as restrições ou mesmo a dúvida filosófica: é sempre categórico. Por isso pôde afirmar, acertadamente, Guillermo Francovitch, que “a hipótese européia se torna axioma americano e, muitas vêzes, a teoria se converte em dogma”.
Claro está que entre assimilar e vulgarizar medeia um abismo. A assimilação tem aqui, por assim dizer, um sentido fisiológico, transformando as idéias e incorporando-as num processo de enriquecimento. A vulgarização, por sua vez, é a atividade intelectual passiva, de falsa clareza, porque arbitràriamente simplifica o complexo e força a elementarização. Já se disse que trivializar não é esclarecer, e muito menos o é essa impertinente falsificação em que costumam incorrer alguns supostos clarificadores. A clareza lícita e desejável é a do exame ou da exposição do assunto, que pode ser por si mesmo sumamente obscuro e o mais que se pode e a que se deve chegar em tais casos é mostrar, com lucidez e honestidade intelectual, suas obscuridades. Nesse sentido, os filósofos nacionais, ao contrário de terem sido meros vulgarizadores, foram e continuam sendo assimiladores de doutrinas alheias, adaptando-as às exigências de nossa formação espiritual.
É bem verdade que têm sido diminutas as nossas contribuições positivas ao conhecimento filosófico geral. Esse fenômeno é fruto normal das situações históricas que vêm condicionando o desenvolvimento cultural e pedagógico do Brasil. A Colônia, o Império e a República são três fases históricas ou três ilustrações políticas, da mesma dependência econômica do Brasil em face de outras nações. Essa dependência — que pode admitir, como ficção legal, a soberania do Estado dependente — não proporciona, porém, àquelas condições materiais e culturais imprescindíveis à eclosão do espírito de livre crítica, ponto de partida da autonomia e da originalidade do pensamento, especialmente do pensamento filosófico.
Todavia, até onde um pensamento possa ser original é uma questão controvertida. Isto porque a originalidade não consiste apenas na singularidade absoluta da criação, se acaso esta é possível; verifica-se também quando o espírito, com autonomia e consciência, aceita o que outros disseram e o reelabora com plena independência. Por isso a pretensão de se bastar a si próprio e o narcisismo da inteligência são quase sempre uma marcha para a esterilidade. Ou seja, o espírito vive de comunicação e de contínua permuta, e não de barreiras nem de autolatrias. Daí a característica assimilativa do pensamento brasileiro que consiste na obliteração, substituição e modificação de modos de sentir, pensar e agir por novos hábitos que se exteriorizam sob a emulação ou sugestão de idéias adventícias “aclimatadas”, que conseguem sobreviver no novo habitat.
Desta forma, a antinomia cultural que Joaquim Nabuco vislumbrara na nossa história — pertencemos à América pelo “sentimento novo, flutuante do nosso espírito”, e à Europa pelas “camadas estratificadas do nosso espírito” — tem uma vigência relativa. Principalmente quando se leva em conta que as obras de filosofia, pensadas e redigidas em nosso país, para serem entendidas e compreendidas, devem ser tomadas à luz do momento histórico em que foram escritas e da finalidade a que visavam. Encarado dêste ponto de vista, o problema da interpretação e da compreensão dos nossos filosofantes que expressaram as vicissitudes das correntes européias no Brasil, apresenta-se de outra maneira, sob novas luzes, com diversa significação.
Fica, portanto, insinuada — a demonstração é a narrativa que segue — a existência de uma filosofia no Brasil, não como um organismo eidético, supratemporal, totalmente imune à contingência histórica, mas como alguma coisa que não é mais que a elevação abstrativa de uma situação vital historicamente dada. No processo de assimilação das idéias alheias, imprimimos as nossas características, de acôrdo aliás com o velho princípio: tudo o que se recebe toma a forma do recipiente, ou como certos perfumes que, em contato com a epiderme, sofrem uma alteração química que lhes altera a fragrância, e nisto consiste nossa “originalidade”.
De resto, a filosofia no Brasil formula problemas próprios. Evidentemente, em primeiro lugar é o prolongamento de uma tradição que nasceu na Grécia, nada tendo de estranho que suas influências gerais tenham sido “européias” e que não se tenha desviado, no essencial, do curso seguido pela meditação filosófica da época moderna. Em segundo lugar, os sucessivos pronunciamentos de originalidade dos nossos pensadores — “pretensões nunca justificadas”, ao ver de Cruz Costa — devem ser entendidos, menos como uma filosofia peculiar do que como temas peculiares, nos quais é flagrante sua autenticidade, graças ao profundo vínculo com a concreta circunstância nacional. Claro está que esta autenticidade não significa que se tenha de sacrificar o peculiar ao verdadeiro, nem impede, da mesma forma, que um dos elementos dela seja, neste caso, sua função de prolongamento e colaboração à tradição filosófica do Ocidente.
Justificada a sintonia da filosofia no Brasil com a filosofia universal, tornam-se óbvios os reflexos desta sôbre aquela, com pequenas ou grandes diferenças sincrônicas. Isto é patente nas gerações ligadas ao ecletismo, ao positivismo, ao espiritualismo, ao historicismo e ao existencialismo, recolhendo da tradição européia o mais característico do pensamento contemporâneo, procurando desenvolver, com sucesso diverso, as diferentes correntes especulativas que coincidiam com as mais fundas aspirações das camadas intelectuais superiores.
Nesse sentido, temos Matias Aires assimilando o iluminismo, Diogo Antônio Feijó o kantismo, Mont’Alverne o ecletismo, Gonçalves de Magalhães o espiritualismo, Pereira Barreto o positivismo, Tobias Barreto o evolucionismo, Farias Brito o bergsonismo, Leonel França a neo-escolástica, Miguel Reale o culturalismo, Cruz Costa o historicismo, Vicente Ferreira da Silva o existencialismo, Caio Prado Júnior o marxismo, Euryalo Cannabrava o positivismo lógico, para só citar os chefes de escolas. Ao lado dêsses filosofantes perfila a dissolução da filosofia na literatura20 e no pensamento geral, que é precisamente uma das características do pensamento filosófico no Brasil. É o caso de Paulo Prado ou Sérgio Milliet, Gilberto Freyre ou Afrânio Coutinho, Fernando de Azevedo ou Oswald de Andrade, Oliveira Viana ou Mário de Andrade, etc., que, sem tratar seus temas de maneira estritamente filosófica, sem dúvida adensam a problemática especulativa.
Portanto, a filosofia no Brasil não é, mesmo em suas tendências mais “logicistas”, ocupação exclusiva sôbre temas abstratos, como também não é simples reflexão sôbre circunstâncias concretas com uma finalidade meramente prática. Por isso podemos afirmar que há uma filosofia brasileira, contanto que não omitamos uma tradição que, como a do Ocidente, se caracteriza em grande parte por haver engendrado a forma do pensar filosófico, e contanto que, a procura de uma autenticidade e peculiaridade brasileiras não nos faça esquecer que, em última instância, o que importa na filosofia é a verdade.”
VI. Apontamentos bibliográficos
A título de informação, quanto ao que já foi dito, deixo aqui algumas provisões bibliográficas fundamentais:
Mencione-se já o livro mesmo de que nos servimos amplamente neste artigo:
Rumos da filosofia no Brasil (Org. de Stanislaus Ladusãns)
A. Subsídio introdutório
Gilberto Freyre:
Interpretação do Brasil
João Camilo de Oliveira Torres:
Interpretação da realidade brasileira
B. A tríade fundamental:
João Cruz Costa:
A filosofia no Brasil
Contribuição à história das idéias no Brasil
Panorama da História da Filosofia no Brasil
Luís Washington Vita
História da filosofia no Brasil
Antônio Paim:
História das ideias filosóficas no Brasil
C. O pioneiro e o sobrevivente:
Sylvio Romero:
Philosofia no Brasil: ensaio crítico
Olavo de Carvalho:
Futuro do pensamento brasileiro
D. Para um princípio de revisão das contribuições acadêmicas
Edmundo Campos Coelho
A sinecura acadêmica: a ética universitária em questão
Paulo Arantes
Um departamento francês de ultramar21
E. Os antecedentes lusitanos
Pedro Calafate:
História do pensamento filosófico português (cinco volumes)
F. Subsídio amplo:
Antônio Saraiva:
Para a história da cultura em Portugal
Fernando de Azevedo:
A cultura brasileira
Wilson Martins
História da inteligência brasileira
In: Rumos da filosofia no Brasil (Org. de S. Ladusans)
Ibid
Ibid
Exemplo marcado dessa abertura ao universal que encarna uma originalidade autêntica e encarnada segundo as notas próprias de seu meio, é João Camilo de Oliveira Torres. Veja-se a amplitude de referências de que dá testemunho em sua formação, cujas resultantes redundaram em verdadeira originalidade:
‘Fixada sempre a posição básica, de cunho tomista tradicional, sofri as seguintes influências, em ordem mais ou menos cronológica: a) Max Scheler, que me marcou bastante na fase de formação e cujas posições fundamentais em axiologia mantenho; Bergson; Duns Esco- to, que começou a interessar-me a partir da guerra e que tenho estudado com intervalos — em certa época, por exemplo, ele foi objeto de intensa correspondência com Frei Constantino Koser, O.F.M., hoje Superior Geral dos Franciscanos; Suárez paralelamente, sobretudo na parte política e nestes últimos tempos Teilhard de Chardin. Natural- niente sofri considerável influência (paralela às citadas) de Maritain, como todos os de minha geração. Como aconteceu com muita gente, li Freud e Maurras (para a política), na mocidade, sofri influências de Spengler, Ferrero, Toynbee etc. Podemos considerá-las influências marginais e avulsas. A moderna teologia — Scheeben, Adam, Daniélou, Jornet, Congar, D. V. Hildebrand e Thils (por esses nomes pode-se deduzir a minha linha nesta parte) — tem sido estudada para fins de atualização. Influências maiores: Scheeben e Daniélou.” Ibid
in: Rumos da filosofia no Brasil (Org. de S. Ladusans).
Leôncio Basbaum. Ibid
Basbaum foi dos pioneiros do comunismo no Brasil, daí essa ênfase da ação presente. Por incrível que pareça, a concretização desse filosofar a partir da condição presente a ponto de atingir as massas, penso, se deu com Olavo de Carvalho; por ironia das moiras.
Ibid
No momento, vivemos novamente isso. Se antes éramos majoritariamente alimentados pela produção intelectual francesa, agora dirigimos nosso mimetismo filosófico e ideológico para as produções americanas. Se, por um lado, importa-se indiscriminadamente os autores de ideologia “woke”, temos por outro a importação de liberais e conservadores.
Citação também extraída do livro organizado pelo Pe. Ladusans. Aliás, a resposta oral das perguntas dirigidas a Mário Ferreira pode ser acessada aqui:
Para isso, basta lembrar a proporção assustadora do erário real dirigida à difusão da propaganda iluminista pelo Maquês de Pombal.
“Interessante capitulo seria, para uma biogratia imparcial do marques de combal, o que, baseando se em documentos coevos, nos informasse sobre qual foi a principal preocupação deste ministro nos quatro anos que se seguiram ao terrivel terremoto de Lisboa em 1755.
Creio que não andaria longe da verdade quem afirmasse que o negocio que mais lhe absorveu as atenções durante aquele tempo não foi acudir com auxilios pecuniarios e aliviar os males da infeliz capital, como tinha obrigas ção de fazer, mais sim guerrear e por todos os meios levar a cabo o exter-minio da Companhia de Jesus em Portugal e seus dominios, no que gastou somas fabulosas e o melhor do seu tempo. E assim não admira que, esque:
cido dos infelizes sinistrados, deixasse apodrecer os enviados de Inglaterra, nos porões dos navios, donde foram baldeados para Só o Breve da Reforma, diz o consciencioso escritor brasileiro, Dr. Alberto Lamego, “custou ao crário publico 300:000 cruzados”. Notavel é a êste pro-posito o testemunho do insuspeito Theiner. Diz ele que Pombal gastava de 800:000 a 1.200:000 ducados por ano somente em pagar a escritores venaes para escreverem contra os jesuitas”.
Nestes quatro anos escreveu êle proprio os dois famosos libelos, a Relas ção abreviada e a volumosa Dedução chronologica, que mandou traduzir em linguas estrangeiras e espalhar profusamente por todas as partes, chegando um exemplar daquela, luxuosamente encadernado, até ás mãos do Papa, que a êle se refere no Breve da Reforma.
A principal acusação que principalmente procuram incriminar aos jesuitas, foi a de êstes no Brasil exercerem comercio. O eminentissimo Cardeal res formador chegou a afirmar terem eles “dentro nas proprias casas de sua resi. dência tendas de generos molhados ou de comestiveis, açougues e outras oficinas sordidissimas”.
Se o honrado Arcebispo da Baia aqui perto as tivesse reconhecido como o Eminentissimo Purpurado as viu lá de Lisboa, não teria sido castigado com a privação de sua mitra e das suas congruas e não iria morrer pobre a Itapagipe.
E o curioso é que os autores portuguêses dão este ponto do comercio jesuitico como coisa certa. Oliveira Martins assegura que os jesuitas eram negociantes “como os que mais eram”. E Lucio de Azevedo afirma que o Geral Ricci “faltava sem rebuço à verdade” quando escreveu não conhecer tal comercio. “Era preciso mais que mediana impudência... continúa ele, para alegar ignorancia de factos tão notorios”.
Notórios? como os prova?”
Nota do traduor à obra Os Jesuítas do Brasil e da Índia na Perseguição do Marquês de Pombal, do P. José Caeiro S.J.
Continua: além dos outros dois Francisco Soares, lusitanos; Martim de Ledesma, espanhol de origem, cuja formação intelectual realizou-se igualmente em Portugal; Francisco a Cristo, O.S.A., e Egídio da Apresentação, O.S.A., Andréias de Almada, S. J.; Ludovico de Sotto Maior, O. P.; Gabriel da Costa; Hector Pinto, O. S.; Hieron; Francisco da Fonseca, O.E.S.A.; Manoel Tavares, da Ordem carmelitana e Francisco Carreiro, da Ordem cisterciense; Jorge O. Serrão, S. J.; Ferdinando Peres, embora nascido em Córdova, foi outro que adquiriu a sua cultura em Portugal; Ludovico de Molina, S. J., nascido na Espanha, viveu, contudo, a maior parte do seu tempo em Portugal, onde estudou e foi discípulo de Pedro da Fonseca, S. J., O Aristóteles português; Petrus Luís, S. J.; Antônio Carvalho, S. J.; Baltazar Alvares, S. J.; Hieronimus Fernandes, S. J.; Gaspar Gonçalves, S. J.; Ludovicus de Cerqueira, S. J.; Gaspar Vaz, S. J.; Diogo Alves, S. J.; Francisco de Gouvêa, S. J.; Ferdinando Rebelo, S. J.; Gaspar Gomes, S. J.; Benedictus Pereira, S. J.; Sebastião de Couto, S. J.; Blásio Viegas, S. J.; Emanuel de Góis, S. J.; Cosmas de Magalhães, S. J.; Pedro da Orta, S. J.; João de São Tomás, O. P., para citar apenas alguns, Portugal nos deu esta floração de filósofos, afora os mais conhecidos, como Sanches e ou-tros, porque correspondem à atual maneira de filosofar no mundo moderno.
No período republicano, surgiram no Brasil muitas faculdades de filosofia marcadaemtne neo-escolásticas. Mas isto já era uma importação de cima, programática, de prelados católicos. Faço especial ênfase à Universidade Católica de Lovaina, que teve papel preponderante nessa difusão por aqui. Ainda assim, os grandes nomes que saíram dessa tendência viram-na como positiva se se considera a necessária formação de base, que era rigorosa. Vide o testemunho do insuspeito Lima Vaz:
“A formação filosófica ali (Faculdade Pontifícia de Filosofia, da então Província do Brasil Central da Companhia de Jesus) ministrada era rigidamente escolástica e acentuava fortemente, mesmo sob o ponto de vista didático da distribuição das disciplinas, o caráter sistemático do modo de pensar filosófico. Tinha, no entanto, um mérito incontestável: o mérito de existir e, portanto, de oferecer um bem definido ponto de partida aos que se sentissem chamados a uma vocação de filósofo por esse incomparável instrumento de precisão que é o latim escolástico. O texto adotado na época, na Faculdade de Filosofia de Friburgo, era a Philosophiae scholasticae summa de V. Remer, S.J., outrora professor da Universidade Gregoriana. Esse texto sóbrio e rigoroso tinha, pelo menos, uma originalidade: a constante referência ás obras de Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, citadas a cada página. Ele abria, portanto, generosamente, a jovens ávidos e cheios de um entusiasmo hoje dificilmente compreensível pelo tirânico imediatismo que nos domina, duas das fontes mais ricas do pensamento ocidental.
Guiado ou motivado pelas citações de Remer, entreguei-me à leitura anotada, página por página, do Comentário de Santo Tomás à Metafísica de Aristóteles, naqueles grandes volumes, encadernados de vermelho, (existirão ainda, depois de tantas mudanças e tantos “aggiornamenti”?) das “Opera omnia” do Aquinate da edição de Parma. Foi para mim a primeira experiência, que recordo com extraordinária emoção, da leitura e meditação de um grande texto filosófico. Entre os meus professores, dois, sobretudo, exerceram sobre mim uma influência decisiva: o Pe. Eduardo Magalhães Lustosa e o Pe. Francisco Xavier Roser, ambos já falecidos. O primeiro abriu*me, ainda que timidamente, as portas da filosofia moderna. Deu-me a ler alguns artigos sobre Husserl e Heidegger e alguns textos, traduzidos em espanhol e francês, desses filósofos.”
Ibid
Ibid
Conf. nota dez.
Conf. nota dez.
Note-se que a produção monumental de Mário Ferreira dos Santos é contemporânea a essas entrevistas. De todo modo, ainda resta desprezada pelos próprios compatriotas, coisa que me faz excluí-la de uma realização, ao menos presente, dessa condição primeira de originalidade. Mais tarde, Pe. Ladusans dirá o seguinte:
“Estou realizando uma pesquisa científica sobre a situação atual do pensamento filosófico, a fim de constatar, com objetividade, em que ponto se encontra a Filosofiahoje no Brasil, como ela se desenvolve, que metas está visando e que objetivos deve atingir. Durante esta pesquisa científica, ainda em curso, descobri um Pensador de extraordinário valor – Dr. Mário Ferreira dos Santos, nascido no dia 3 de janeiro de 1907 e falecido no dia 11 de abril de 1968. A descoberta deste Filósofo solitário, dedicado a uma intensa atividade de pensamento e produção literária, surpreendeu-me não pouco e proporcionou-me a grata oportunidade de entrar em freqüentes contatos pessoais com ele, homem, que ainda não foi encontrado no Brasil.”
“Pe. Ladusãns, S.J., reconhecendo o valor de Mário Ferreira dos Santos procurou difundir sua obra enviando-a para várias bibliotecas católicas da Europa.”
(Apud: Monografia-biografia sobre Mário Ferreira dos Santos, por Nadiejda Santos Nunes Galvão e Yolanda Lhullier dos Santos, 2001)
A sequência desse artigo é uma síntese panorâmica de Washgington Vita, cuja continuação colocarei num segundo artigo, por ser muito mais extensa e pela função de introdução historiográfica. Trata-se do excerto inicial do artigo homônimo presente na coletânea “O Mito de Hefestos”, 1959.
Na história da inteligência brasileira, uma tradição que remonta aos primeiros tempos de nossa vida independente consagra o interesse pelo tema паcional, conferindo-lhe inclusive conotação progressista, enquanto repudia o incaracterístico universal, condenado por inautêntico e alienante. Onde essa tradição melhor se expressou foi na literatura, durante um longo período nossa principal atividade intelectual: quem escrevia, fazia-o na intenção de revelar o Brasil aos seus compatriotas e possuído pelo sentimento de estar contribuindo para a consolidação da nacionalidade ainda incerta, como até hoje. Na base desse impulso coletivo, formou-se a literatura brasileira, como mostrou Antonio Cândido.
Deu-se o inverso com a Filosofia. Não se prestando à figuração da realidade como a literaturа, a Filosofia não ultrapassou entre nós o limiar da mera curiosidade, episódica e errática, por livrOS de filosofia (era considerado filósofo quem os lia) ate a sua organização na forma de cursos superio res regulares, a partir dos anos 30 deste século, quando então reencontrou seu destino moderno de espеcialidade universitária como outra qualquer. Coтparada à literatura, trata-se de um enxerto sem passado.
Link também na nota dez.
Por motivos obviamente suspeitos, esses dois livros estão sob grave dificuldade de difusão.

